domingo, 24 de junho de 2007

Brilho aquoso


(*) A regra número um para a insônia
é respirar pausadamente
mantendo o coração ritmado.
A regra número dois
É tentar mesmo esquecer.

Bem que tentou seguir as regras do poema, mas não conseguiu. No dia seguinte, acreditou no engodo do almoço. Sentaram-se frente a frente. Observava-se um discretíssimo brilho aquoso no canto dos seus olhos.

Ali se esqueceu rapidamente da vigília anterior, das injúrias e perjuras. Embora triste a expressão, tentava falar alegremente até que:

“Não vês que são lágrimas e não insônias que trago em meu olhar!” – foi preciso dizer diante de insensível observação ouvida.

Assim, o diálogo e o almoço encerravam-se sem um prólogo, índice, prefácio ou conclusão!

Levantou-se tendo por companhia a saudade e as dúvidas, guias até ali.

Seguiu com a única certeza possível: seus olhos amanheceriam mais uma vez com discretíssimo brilho aquoso.

(*) Jacinto Fabio Corrêa. Pedaços. O Parasempre da Hora - poema 19

Juras da manhã


A noite costuma ser boa conselheira. No seu silêncio escuro, muitas vezes a autenticidade explode magnificamente sem que se possa fazer qualquer coisa pra evitá-la.

Assim, sentindo aflorar sua autenticidade em desejos frustrados, debruçou-se sobre o poema de K. Kaváfis:

Jura

Jura de quando em quando começar uma vida melhor.
Mas quando vem a noite com seus próprios conselhos,
Com seus compromissos e com suas promessas;
Mas quando vem a noite com sua própria força,
Para a mesma alegria fatal de seu corpo,
Que quer e que reclama, perdido, ele retorna.


Seus olhos moviam-se rápido enquanto o cérebro lentamente tentava absorver aqueles versos tão autobiográficos.

Ninguém descreveria com tanta propriedade o momento em que vivia, senão como o fez o poema de Kaváfis. E nem sabia por que obra ou mãos aquelas palavras eram tão suas e lhe descreviam tão perfeitamente.

Fechou o livro. Parou pra refletir. Cansou-se e adormeceu entre dúvidas e desejos. Acordou. A manhã promete uma nova jura, um novo poema.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Sobre camisetas e paralelismo


Imagine você indo com sua camiseta nova (ou velha) para uma determinada ocasião e encontra outra pessoa com camiseta igual a sua na mesma determinada ocasião. É decepcionante! E há sempre um babaca pra dizer: “a dupla vai cantar onde?”.

Agora imagine a mesma situação ocorrendo com a pessoa que há tempos você está na azaração e finalmente consegue convidar pra sair. Não dá para imaginar algo do tipo “isso ta começando bem demais”?

Não é o cúmulo da sintonia, a pessoa que você está a fim sair de casa com a mesma camiseta? Você não começa a pensar que os céus, a vida, Deus (seja lá onde está a sua crença) estão enviando um sinal?

E só pode ser bom sinal, essa coincidência. Ainda mais que na nossa sociedade “vestir a camisa” tem todo um significado de comprometimento, responsabilidade e dedicação. É pra impressionar, não é?

Eu costumo chamar essas situações de paralelismo. É um conceito roubado da Análise Sintática do nosso Português e significa o encadeamento de orações com valores sintáticos iguais.

Por desconhecimento, o paralelismo vem sendo negligenciado nos textos e também nas relações humanas. Por isso muitos são derrubados nos concursos públicos e também na vida social, porque não sabem identificar nem analisar corretamente a situação.

Se, contudo, você não tá nem aí e nem quer depender do paralelismo para saber se o seu romance está tendo um bom começo, leve a pessoa num restaurante japonês (sempre impressiona, principalmente se o garçom souber o seu nome).

Antes que me esqueça, há quem prefira chamar esse paralelismo das camisetas de acaso. Pra mim, não. Trata-se de um forte indicador que aquela pessoa é a oração correta na sua frase, como nas regras sintáticas do nosso Português. Vai brincar com a sorte?